Em alguns momentos cheguei a pensar que sim e acredito que você também. Há um racional que parece lógico: “Se o líder é o nível máximo na organização e ele está causando prejuízos nos níveis mais baixos, nos clientes, nos negócios, então sim, ele é o vilão”. Minha perspectiva mudou, não quando assumi uma posição de liderança (porque estando nesse lugar eu achava que sim, eu era a vilã e que a responsabilidade de tudo que acontecia com os liderados e com os negócios era realmente minha), mas quando passei a atender os líderes em meu consultório de psicologia, conduzindo sessões semanais de psicoterapia com eles.
É comum que os indivíduos busquem fazer terapia com seus semelhantes e, por este motivo, recebo muitos pacientes que estão empregados no ambiente corporativo em cargos de gestão (fui do corporativo por 20 anos, treinei e mentorei milhares de líderes e assumi posições de liderança relativamente cedo, então, além do olhar de psicóloga, eu tenho um olhar empático e cuidadoso de quem viveu o que eles vivem e de quem compreende a complexidade das demandas de quem se encontra nesta posição). E foi ouvindo as histórias, as dores, os medos, os pensamentos desses pacientes com complexas demandas que refiz os meus próprios pensamentos.
Quando pensamos na origem da palavra Terapia entendemos o que os líderes buscam quando procuram ajuda profissional: eles querem restabelecer ou curar o que está doendo de verdade. E você tem ideia do que um líder precisa se curar? O que faz um líder sofrer e adoecer? Eu te digo: a própria função de liderança muitas vezes é o motivo pelo adoecimento. Liderar é uma função exaustiva e constantemente relatada como solitária. O líder não tem com quem falar, não pode ter colegas para não misturar as coisas, não almoça com o grupo, não é chamado para os eventos externos, o líder não participa das piadas, ele está automaticamente excluído da vida social do escritório. O líder também não pode desistir, ele precisa inspirar, orientar, guiar, conduzir e ser exemplo para os liderados e este lugar é um grande fardo. Dói perder o poder de escolha e ter que sorrir quando só se quer chorar. Dói fingir, encenar, mascarar para que ‘não percebam e não se desestimulem’. O líder está ali, para os seus 10, 50, 100 liderados que precisam de um espelho positivo. Ele é o espelho intacto, otimista, vigoroso, corajoso, mesmo que por trás desse espelho só encontremos pedaços.
Liderar é um lugar de muita responsabilidade, geralmente estes indivíduos são responsáveis por coisas grandes: quantia significativa de dinheiro, clientes importantes, imagem e reputação da companhia, questões legais. Para que consigam conduzir estes temas, os líderes começam a fazer escolhas, muitas vezes erradas e injustas, e que priorizam o coletivo ao invés do próprio ser. O líder pensa: “Vou fazer só mais este material para apresentar ao time amanhã e depois eu durmo”. Ele desiste da própria noite de sono para surpreender os liderados, os clientes, os pares, os gestores. Aí no dia seguinte, este líder vai trabalhar, exausto, depois de ter dormido um total de 3h à noite. Aí você, liderado, se aproxima do líder, depois de ter dormido suas 8h seguidas, tranquilo e feliz, e lhe faz uma pergunta. O seu líder, com o nível de cortisol altíssimo, exausto, fadigado e ainda processando que o dia já começou e que ele precisa se sair bem, lhe dá uma resposta atravessada. Você imediatamente pensa: vilão! E eu te desafio: vilão ou mocinho? Lembra o motivo maior que fez o líder não dormir no horário habitual? O desejo de ser bom e de surpreender. Ele queria um material bom, para encantar, para motivar, para estimular o time. O objetivo era nobre, a execução foi ruim, e a imagem, que ele tanto queria transmitir de ser um bom líder, se afundou na resposta atravessada que ele deu em uma manhã estressante. Este é apenas um exemplo do ciclo de avaliação que os liderados fazem de seus gestores (e eu também já fiz). Me tratou mal > não tem empatia > não merece minha confiança > não farei mais nada para ele > é um líder mal > é um vilão.
Meus pacientes que são líderes, definitivamente não são vilões e eles me fizeram refazer este pensamento e eu quero ajudar a refazer o seu também.

Alguns pontos importantes que precisamos considerar na construção desse racional:
- Nenhum líder se torna líder porque foi malvisto pelos colegas, porque fez um trabalho ruim, porque não conduziu bem suas demandas. Exatamente o oposto: um indivíduo se torna líder porque fez um trabalho que o diferenciou, porque teve um comportamento que o diferenciou e porque demonstrou capacidade para conduzir outras pessoas a fazerem o mesmo que ele fez, mesmo que quem tenha analisado estas habilidades tenha sido um profissional de gosto duvidoso, ainda assim, o líder apareceu como alguém com aspectos positivos, e por isso, ele foi sendo promovido.
- O líder não é um ser especial e protegido, não é um ser intocável e superior. O líder é um ser humano frágil, estressado, sobrecarregado, inseguro e cheio de responsabilidades para além do trabalho, como casa, dívidas, família, filhos, trânsito, viagens, doenças. Quando o enxergamos como ele realmente é, entendemos o motivo de cada comportamento e passamos a ter empatia com ele também. Se o analista fica exausto porque precisa entregar 10 planilhas ao final do mês, imagine o líder que tem 6 liderados e que precisa checar a qualidade e o prazo das 10 planilhas de cada um, totalizando um controle de 60 planilhas e o apoio a 6 liderados, cada um se queixando da dificuldade de fazer o seu trabalho e da desmotivação causada pelo estresse e cobranças de seu cliente interno. Não estou diminuindo o cansaço do analista e nem dizendo que ele não pode se desmotivar, mas estou enfatizando como o líder está sobrecarregado e cansado e como ele precisa se manter ativo, alerta, motivado e contagiar as pessoas ao seu redor. Aqui está um ponto importante: com que emoção ele irá contagiá-las? O que o líder sente importa e importa muito.
- A liderança da sua organização provavelmente não quer prejudicar você, nem seu colega, nem a imagem da empresa, nem os clientes. A liderança da sua organização tem contas a pagar, filhos para criar e um medo quase que irracional de ser demitido e fracassar. Tudo o que ele mais quer é alcançar o sucesso nos negócios, ver o sucesso de seus liderados e ter sucesso também. É uma busca constante pelo acerto, pelo aplauso, pelo reconhecimento, pela perfeição, que às vezes o próprio líder se perde em tamanha cobrança. Portanto, se o seu líder quer o sucesso a todo custo, entenda: não é um comportamento do mal, mas sim, um comportamento de segurança e sobrevivência. No fundo o mais inseguro na história toda provavelmente é ele.
- Há transtornos mentais que prejudicam a performance do seu líder e o comportamento dele com a equipe e provavelmente você o verá como um líder vilão ou um líder que falha contigo (porque provavelmente ele realmente falha. Você falha. Quem não falha?). Líderes com ansiedade social, por exemplo, não conseguem chegar no escritório sorrindo, cumprimentar as pessoas com abraços e parecerem animados com encontros. Eles sofrem muito antes de interações e, se pudessem, nem o fariam. Você que é o senhor empolgado às 8h da manhã da segunda-feira provavelmente vai se frustrar com um líder mais contigo. Líderes com transtorno depressivo pensam coisas negativas sobre eles mesmos o tempo todo. Pensam que são um fracasso, que nem deveriam estar onde estão, que são fracos e indesejados. Aí chegam para uma reunião de trabalho com a equipe e adivinhem só: não conseguem animar e inspirar as pessoas, porque também não conseguem fazer isso por eles mesmos. Líderes com transtornos alimentares, comem escondido, vomitam escondido, e fingem ter uma relação boa consigo. Mas a verdade é que não têm. Ir na frente de um grande público para passar uma mensagem importante é um evento dramático: ‘Como vou me vestir e me portar, gordo e feio que sou, e ficar na frente da plateia?’ – é o pensamento do líder e quando ele consegue fazer a tal apresentação, não é brilhante como você, liderado, achava que ele deveria ter sido. O líder com TDAH tem uma dificuldade enorme de entender o tempo das outras pessoas, porque ele é agitado e eufórico por natureza, então ele cobra e exige uma velocidade do time que é incompatível com a realidade. Ele também se desorganiza com o que fala, com o que pensa, com os prazos que combina. Você liderado acha ele um vilão por cobrá-lo tanto e por ser, aos seus olhos, tão ‘bagunceiro’. Ele está só tentando gerenciar o próprio TDAH e as demandas da liderança, que são muitas. Dito isto, acredito realmente que o líder está tentando, através do erro e do acerto e que ser imperfeito é um caminho natural para uma gestão de sucesso.
- Ninguém é totalmente bom e nem totalmente mal. As pessoas são como ondas, elas reagem ao ambiente, ora sendo otimistas e alegres, ora sendo pessimistas e tristes. Elas reagem também às suas próprias questões, aos seus pensamentos, às demandas pessoais, ao mercado de trabalho, aos clientes. Quando desfazemos o pensamento dicotômico e enxergamos nuances nas histórias, compreendemos que o líder não é o vilão, mas também não é o mocinho (mesmo que em alguns dias ele só consiga expressar seu jeito vilão e em outros dias ele só consiga expressar o seu jeito mocinho). Quando escrevi ‘Cartas a um péssimo líder’ eu decidi riscar a palavra péssimo justamente para transmitir a ideia de que não é justo rotular as pessoas de A ou B. Ninguém é péssimo, ninguém é ótimo, as pessoas mudam e se comportam de formas diferentes em um único dia. Isso não é bipolaridade como o senso comum insiste em nomear. Isso é reação normal ao estímulo externo (ambiente). O que acontece no meio, interfere o modo como o líder pensa, que interfere no modo como ele sente, que vai impactar a forma dele de se comportar. O líder que se apresenta impecável, no dia seguinte, e por razões diversas, se apresenta de modo lamentável e isso é o que o torna realmente um ser humano comum, que reage às situações, às pressões, que se conecta com suas próprias emoções, que escancara as suas dificuldades sociais, emocionais, relacionais e que tenta seguir normalmente no dia seguinte. O perfeito demais me deixa desconfortável, porque sei (depois de mais de 10 anos de prática clínica) que não existe. Quanto mais disso o líder faz, mais eu entendo que ele é um ser confiável e “normal” e menos um vilão.

Sabemos que boas intenções não anulam as consequências geradas de comportamentos nocivos. Sabemos também que o liderado também erra, também é injusto, falho, incoerente e imperfeito. Sabemos ainda que essa relação líder-liderado precisa funcionar para que os negócios prosperem.
Quando deixamos o lugar de juízes e assumimos um lugar de compreensão e maturidade, temos relações reais, profundas e que funcionam muito bem, apesar das imperfeições. Quando escolhemos por não rotular ninguém e saímos desse pensamento dicotômico (ou é tudo, ou é nada) conseguimos construir relacionamento honesto. Em Psicoterapia te ensino a construir um relacionamento melhor com seus colegas, líderes e liderados, no ambiente de trabalho.
