O cafezinho é o grande parceiro dos escritórios, liberado, gratuito, quase que o atendimento à uma necessidade básica do ser humano. É na pausa do cafezinho que coisas interessantes acontecem: risadas, convites, lembretes profissionais, realinhamento de demandas, paqueras e aquele momento de descompressão necessário após reuniões difíceis e conflitos profissionais.
Muitos líderes fazem consumo diário e excessivo de café. “Me deixa mais alerta, mais atento, mais produtivo” – muitos deles afirmam. “É só assim que eu funciono” – outros assumem a relação de dependência criada. “Sem meu café, eu não presto para nada” – ainda há aqueles que validam o café como sua única fonte de inspiração, motivação e ânimo.
No episódio 6 da primeira temporada de ‘The Office’, Michael Scott diz: “O café é o grande incentivador do escritório. É uma droga. É, literalmente, uma droga que acelera as pessoas.” E esta frase me faz refletir: uma droga, gratuita, disponível, acessível e que teoricamente gera efeitos positivos nos trabalhadores: mais aceleração, mais inquietação, e, portanto, mais produtividade? É conveniente manterem os ambientes de cafezinho sempre bem munidos do incrível líquido marrom-preto.

Segundo o DSM-5-TR, o manual de diagnósticos de transtornos mentais, há diversos transtornos causados pelo uso de cafeína: intoxicação por cafeína, abstinência induzida por cafeína, transtorno de ansiedade induzido por cafeína, transtorno do sono induzido por cafeína, entre outros. Deixe-me lhes explicar cada uma delas:
- A intoxicação por cafeína ocorre após consumo recente de cafeína, geralmente em quantidade elevada, com sintomas como inquietação, nervosismo, excitação, insônia, taquicardia, agitação psicomotora, aumento de diurese, sintomas gastrointestinais, sensação de energia inesgotável.
- A abstinência induzida por cafeína surge após redução abrupta ou interrupção do uso habitual, podendo envolver dor de cabeça, fadiga/sonolência, irritabilidade ou humor deprimido, dificuldade de concentração, náusea, vômito ou dor/rigidez muscular.
- O transtorno de ansiedade induzido por cafeína ocorre após consumo excessivo de cafeína, causando ansiedade e pânico, não se trata de uma manifestação transitória pelo uso de cafeína, e há uma relação direta de tempo e causa em relação ao uso e aos sintomas percebidos.
- O transtorno do sono induzido por cafeína revela alterações importantes no sono do indivíduo, o problema causa sofrimento e está relacionado diretamente de forma temporal e causal após o consumo.
Sabemos que para adultos a dose recomendada é de 400 mg/dia, isso dá em torno de 2 a 4 xícaras, dependendo do tipo de preparo, mas sabemos também que peso corporal, medicamentos, condições de saúde e sensibilidade individual podem fazer com que efeitos desagradáveis apareçam com quantidades menores. Este é um aspecto que precisa ser avaliado individualmente, com tentativa e erro (consome, observa, consome mais, observa, consome menos, observa).
Em Psicoterapia ensino meus pacientes a perceberem seus próprios limites, a compreenderem que agitação, inquietação e aceleração cardíaca, efeitos causados pelo uso de cafeína, não têm a ver com produtividade, foco e bons resultados. Ensino também que despertar e ter interesse pelo dia não têm a ver com a xícara de café que tomam, mas com os hormônios que produzem. A melatonina, que cai ao amanhecer e reduz seus sinais de sono (te fazendo acordar), a adrenalina e noradrenalina que deixam você em estado de alerta e não mais em estado de vigília (sono), o cortisol, que aumenta nas horas próximas do despertar, ajudando a elevar sua glicose, sua pressão arterial e aumentando seu estado de alerta, tem a ver também com adenosina que vai se acumulando durante o dia e te envia sinais de cansaço quando você precisa dormir. É justamente aqui que o cafezinho atrapalha a jogada. Ele não te dá energia, ele não é um alimento rico em carboidratos, gorduras e proteínas, porque essas sim fornecem energia. Ele é apenas um bloqueador de receptor de adenosina, ou seja, ele não deixa que os sinais de cansaço e fadiga cheguem ao seu cérebro e sejam corretamente interpretados.
Se você refletiu com este texto e quer rever o seu consumo de café, para, de verdade, se tornar mais ativo, mais produtivo, mais concentrado, e se sentir um líder melhor, vamos começar um processo de psicoterapia íntimo, prático, acolhedor e resolutivo. Vai ser um prazer em nossa psicoterapia tomar um cafezinho (um só pode) com você, rs!

